A energia renovável não é um salvo-conduto moral. Precisa de limites, de contexto e de uma leitura fina do território. Sobretudo, precisa de reconhecer que há lugares onde o valor acumulado, ecológico, cultural, simbólico e comunitário é demasiado alto para ser colocado em risco
Carlos Alberto Cupeto – 06/12/2025
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á lugares que nos obrigam a parar e pensar. Não porque sejam frágeis, mas porque transportam uma força acumulada em séculos de relação entre substrato, pessoas e ecologia. São territórios que guardam uma memória longa, feita de práticas agrícolas, de mosaicos agroflorestais, de usos que foram moldando a paisagem e criando aquilo a que chamamos identidade, saberes, artes e cultura. A área onde se prevê instalar o megaprojeto fotovoltaico e a linha de muito alta tensão Sophia, estendendo-se pelos concelhos de Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, é um desses lugares. E, perante a escala da intervenção, a pergunta torna-se inevitável: quanto estamos dispostos a perder em nome de uma transição energética que já não corresponde, na prática, à promessa de sustentabilidade que a legitimou? O Sophia implica uma alteração profunda num território cuja resiliência depende de equilíbrios delicados: solos férteis, sistemas agroecológicos diversificados, corredores ecológicos essenciais e um património cultural vivo que não existe separado da paisagem que o sustenta. A análise cruzada dos impactos revela um padrão consistente: perda de funções ecossistémicas, fragmentação de habitats, pressão acrescida sobre a água, aumento da erosão e uma intrusão visual capaz de reconfigurar toda a leitura e a mensagem da paisagem. Não estamos perante um ajustamento controlado, mas perante uma transformação estrutural radical com efeitos cumulativos difíceis de acomodar, integrar, compensar e reverter. Mas o impacto não é apenas ecológico, é também cultural e simbólico. As Aldeias Históricas e os territórios envolventes não são meros cenários: são infraestruturas identitárias, resultado de séculos de trabalho, abandono, retorno e reinvenção. Sobrepor-lhes milhares de hectares de infraestrutura técnica equivale a redesenhar a relação das comunidades com o seu lugar. E essa perda de relação tem consequências profundas. A perda não se compensa com medidas técnicas ou contrapartidas financeiras. Quando se perde, fragiliza a coesão, a confiança e a continuidade, três pilares que sustentam a vida no Interior.
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