Um estreito bloqueado. Onze milhões de barris por dia desaparecidos. Da Coreia do Sul à Nova Zelândia, do Paquistão à Europa, como a guerra no Irão pôs o mundo inteiro de joelhos.
Acordem.pt | 2 de abril de 2026
O Estreito de Ormuz tem, no ponto mais estreito, trinta e três quilómetros de largura. É uma faixa de água entre o Irão e Omã que, em condições normais, ninguém olha duas vezes para este num mapa. Mas por ali passam, todos os dias, cerca de vinte por cento do petróleo mundial e quantidades significativas de gás natural liquefeito. Quando o Irão fechou o estreito no início de março, esse corredor deixou de existir, e o mundo percebeu, de uma vez por todas, o que significa ter a economia global dependente de uma faixa de água que um único país pode bloquear com minas, drones e mísseis costeiros.
O diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, não usou meias palavras: chamou ao que se segue “o maior desafio de segurança energética da história moderna”. Onze milhões de barris por dia desapareceram dos mercados. Os preços dispararam de setenta e um dólares por barril no final de fevereiro para mais de cem em março, aproximando-se dos cento e vinte em finais do mês. Analistas mais pessimistas falam em cento e setenta e cinco antes do fim do ano, se o bloqueio se mantiver.
O que se segue é uma viagem à volta do mundo pelos países que estão a pagar a fatura de uma guerra que não pediram e que não podem parar.
Europa: outra vez à beira do precipício energético
A Europa entrou neste conflito com os níveis de armazenamento de gás natural em mínimos históricos, estimados em apenas trinta por cento da capacidade depois de um inverno de 2025-2026 particularmente rigoroso. A interrupção do fornecimento de gás natural liquefeito do Qatar, que também transita pelo Estreito de Ormuz, fez o resto. Os preços de referência do gás natural europeu quase duplicaram para mais de sessenta euros por megawatt-hora em meados de março.
A Comissão Europeia aconselhou os Estados-membros a encherem os seus armazéns de gás antecipadamente para evitar picos de preços no outono. O diretor executivo da Shell avisou que a Europa pode enfrentar escassez de combustível já em abril. A cadeia britânica Asda confirmou que está a registar falhas nos seus postos de abastecimento. Em meados de março, os governos estaduais australianos de Victoria e Tasmânia tornaram os transportes públicos gratuitos para todos os utilizadores por forma a reduzir o consumo de combustível.
O paradoxo europeu é cruel: o continente que mais se opôs à guerra é o que mais está a sofrer as suas consequências energéticas. A Espanha, que fechou o espaço aéreo aos aviões americanos, vê agora os preços da eletricidade disparar. A França, que deu lições de direito internacional, enfrenta uma crise de abastecimento que nenhum porta-aviões consegue resolver. A ironia não passa despercebida a quem ler a imprensa com atenção e sentido crítico.
Ásia: pânico em câmara lenta
Se a Europa sofre, a Ásia está em estado de choque. A China, o Japão, a Coreia do Sul e a Índia juntos representam setenta e cinco por cento das exportações de petróleo do Golfo Pérsico e cinquenta e nove por cento das exportações de gás natural liquefeito. A maioria destes países não tem alternativas à vista e as suas reservas estratégicas não chegam para muito tempo.
A Coreia do Sul é talvez o caso mais dramático. O presidente Lee Jae Myung disse publicamente que “não consegue dormir à noite”. Os sul-coreanos começaram a fazer compras de sacos de plástico em pânico, não por capricho, mas porque a cadeia de produção petroquímica, da qual derivam a maior parte dos plásticos, está a ser diretamente afetada pela escassez de crude. Os estudos do Economic Research Institute for ASEAN and East Asia confirmam que a maioria dos países do Sudeste Asiático tem reservas de petróleo e gás para apenas de vinte a cinquenta dias.
O Japão, que tem a terceira maior reserva estratégica de petróleo do mundo e está a relançar centrais nucleares desativadas após Fukushima, rasgou os planos energéticos existentes e está a redesenhar a sua estratégia do zero. O Vietname pediu formalmente ao Japão e à Coreia do Sul ajuda para garantir fornecimentos de crude. As Filipinas declararam estado de emergência a vinte e quatro de março, agravado por uma greve de transportadores que coincidiu com a escassez de combustível.
Países como o Zimbabwe, o Paquistão, o Bangladesh e a Nigéria enfrentam situações ainda mais graves, com escassez severa de combustível sem reservas estratégicas que sirvam de almofada e sem capacidade financeira para pagar preços de mercado que triplicaram em semanas.
O petróleo como arma: não é novidade, mas desta vez é diferente
A história dos choques petrolíferos é conhecida. Em 1973, o embargo árabe quadruplicou o preço do barril e gerou filas nos postos de abastecimento dos EUA. Em 2022, a invasão russa da Ucrânia perturbou os mercados de gás europeus durante meses. Em todos esses acontecimentos, o mundo prometeu aprender a lição. Mas, assim que os preços baixaram, o conforto regressou e as lições foram arquivadas.
Desta vez há uma diferença estrutural. O bloqueio do Estreito de Ormuz não é um embargo político que pode ser levantado por negociação diplomática. É o resultado de um estado soberano a usar a sua posição geográfica como arma de guerra. E o novo Supremo Líder iraniano, Mojtaba Khamenei, já anunciou que pretende manter o estreito fechado indefinidamente e que o Irão está a considerar criar um sistema oficial de taxas de passagem para os navios que queiram transitar, transformando um corredor marítimo internacional numa fonte de receita para o regime.
Onze navios de guerra foram já atingidos por ataques militares no estreito ou nas suas imediações. As companhias de navegação que ainda tentam a passagem cobram prémios de seguro astronómicos, quando aceitam sequer esse risco. O tráfego de petroleiros caiu para valores de um dígito em alguns dias de março, contra a centena e meia que transitava diariamente antes da guerra.
A grande viragem, ou não
Cada vez que o mundo sofre um choque energético, uma parte da classe política e dos analistas anuncia que desta vez é diferente, que a transição para as renováveis vai finalmente acelerar de forma irreversível. O secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, Simon Stiell, foi a Bruxelas dizer que continuar a apostar nos combustíveis fósseis é “completamente delirante” e que “a história diz-nos que esta crise vai acontecer uma e outra vez”.
Tem razão no diagnóstico. Mas os cínicos (realistas), e a história dá-lhes razão com uma regularidade desconfortável, lembram que em 2022, quando a Rússia cortou o gás à Europa, a resposta imediata de vários países foi reabrir centrais a carvão. A transição energética progride globalmente, é verdade: em 2025, pela primeira vez na história, mais eletricidade foi gerada na União Europeia por fontes eólicas e solares do que por combustíveis fósseis. A China instalou mais capacidade renovável do que qualquer outro país. Mas o mundo continua a aumentar o consumo total de fósseis todos os anos.
A conclusão mais honesta é que as renováveis não resolvem uma crise energética. Não há painel solar que substitua um petroleiro. O que esta guerra demonstra, com uma clareza que nenhum relatório climático conseguiu até agora, é que a dependência de combustíveis fósseis concentrados geograficamente é uma vulnerabilidade estratégica de primeira ordem. Não ambiental. Estratégica.
Países que investiram em energia doméstica nuclear estão a absorver melhor o choque. Os que não o fizeram estão a pagar a conta com inflação, racionamento e instabilidade política. É uma lição que alguns vão aprender. Outros esperarão que os preços baixem para a esquecer de novo.
Trinta e três quilómetros de largura. É tudo o que separa a economia global do caos energético. Não é um rio. Não é uma montanha. É uma decisão política de um regime que Washington foi destruir e que, ao fim de mais de um mês de guerra, ainda controla o estreito.
O mundo inteiro está a pagar para descobrir que vencer uma guerra, ou alcançar a paz são coisas muito diferentes.
FONTES:
- CNN — “Day 33 of Middle East conflict — Trump’s first address to the nation on Iran war”, 2 abril 2026
- Wikipedia — “2026 Iran war fuel crisis”, consultado em 2 abril 2026
- Carnegie Endowment for International Peace — “Some Countries Are Better Prepared for an Energy Crisis This Time”, 1 abril 2026
- Council on Foreign Relations — “The Iran War Is Reshaping Asia’s Energy Security Strategies”, 26 março 2026
- Chicago Council on Global Affairs — “Why the War in Iran Prompted a Global Energy Crisis — and How it Might End”, março 2026
- PBS NewsHour — “Some leaders see powerful argument for renewable energy as Iran war shakes markets”, março 2026
- Inside Climate News — “Iran War Shows That Doubling Down on Fossil Fuels Is ‘Delusional,’ UN Climate Chief Says”, 16 março 2026
- New Statesman — “After the Iran war, the electrostate will rise”, 2 abril 2026
- Washington Times — “Trump threatens to leave NATO, touts Iran ceasefire”, 1 abril 2026




