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18 de Julho, 2026 06:42

Irónico: a poeira do Sara devolve a radiação dos testes nucleares franceses nos anos 60

A poeira do deserto do Saara soprada para norte pelos fortes ventos sazonais em França não trouxe só uma luz e um pôr-do-sol deslumbrantes – transportou também níveis anormais de radiação.

Isto segundo a ONG francesa Acro (Association for Control of Radioactivity in the West), que monitoriza os níveis de radiação.

A radiação não é considerada perigosa para a saúde humana, mas chegou a França com uma grande dose de ironia.

Acro disse que provém de testes nucleares realizados pela França no deserto argelino no início dos anos 60, quando o país do Norte de África era um território ultramarino francês.

Afirma que um efeito “bumerangue” trouxe de volta o césio-137, um produto da fissão nuclear criada em explosões nucleares.

Acro disse que fez testes sobre a poeira sarauí recente que recolheu na área do Jura, perto da fronteira francesa com a Suíça.

“Considerando depósitos homogéneos numa vasta área, com base neste resultado analítico, o Acro estima que havia 80.000 bq por km2 de césio-137”, afirmou numa declaração.

“Esta contaminação radioactiva, que vem de longe, 60 anos após as explosões nucleares, lembra-nos a contaminação radioactiva perene no Sara, pela qual a França é responsável”, acrescentou.

O pó radioactivo do deserto pode ser perigoso?

Se alguém conhece bem a poeira do Sara na Europa, são os cientistas das Ilhas Canárias.

De um laboratório da Universidade de Laguna, em Tenerife, o professor Pedro Salazar Carballo disse à Euronews: “A poeira do deserto do Sara, ou calima como é chamada nas Ilhas Canárias, contém por vezes potássio 40, naturalmente presente em minerais e também césio-137 de testes nucleares do governo francês”.

O seu laboratório publicou recentemente um estudo sobre os níveis de radiação presentes nas poeiras trazidas pelas fortes tempestades em 2020, que forçaram o encerramento dos aeroportos, mantendo centenas de turistas presos.

Nessa altura, encontrou níveis elevados de potássio 40 e de césio-137.

Salazar Carballo insiste que estes níveis são seguros, e o laboratório efectua uma monitorização constante dos níveis que são enviados para o Conselho de Segurança Nuclear. Nunca encontrou níveis alarmantes trazidos pelas tempestades – mesmo tendo detectado os incidentes de Chernobyl e Fukushima.

“O que nos expõe mais à radioactividade é o rádon natural que emana naturalmente do próprio solo”, explica Salazar Carballo.

“Estima-se que entre 5% e 14% dos cancros pulmonares são devidos ao gás rádon que respiramos, especialmente em espaços subterrâneos e fechados”.

A Europa Ocidental está actualmente no meio de outro episódio de pó do Sahara, e houve pelo menos três nesta estação.

Uma nuvem bastante espessa está a atravessar o Mediterrâneo cobrindo partes de Espanha, França, Reino Unido e Alemanha, entre outros, onde o fenómeno da “chuva de lama” é agora esperado.

E como a tempestade afecta novamente o interior da Argélia, é provável que as partículas transportem de volta algum césio-137 do local do ensaio nuclear francês realizado a 13 de Fevereiro de 1960.

Com o nome de código “Gerboise Bleue”, esse teste e os seus restantes resíduos, de regresso a França, poderiam servir como lembrança do vestígio persistente de energia atómica.

Por Rafael Cereceda – Actualizado: 01/03/2021

https://www.euronews.com/2021/03/01/irony-as-saharan-dust-returns-radiation-from-french-nuclear-tests-in-the-1960s

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