A votação sobre o «Chat Control» paira como uma espada de Dâmocles sobre a privacidade digital de centenas de milhões de europeus — e tudo indica que as regras do Parlamento Europeu estão a ser deliberadamente postas de lado para fazer aprovar esta controversa proposta de vigilância o mais rapidamente possível. Os eurodeputados Martin Sonneborn e Sibylle Berg dão o alarme, mas são sistematicamente ignorados.
Robin de Boer – 7 de julho de 2026
O que é, afinal, o «Chat Control»?
«Chat Control» é o nome popular dado a um regulamento europeu que obriga as grandes plataformas tecnológicas a analisar automaticamente todas as mensagens privadas dos utilizadores à procura de material ilegal, nomeadamente no que diz respeito ao abuso infantil. Parece mais nobre do que realmente é. Os críticos — entre os quais especialistas em privacidade, juristas e organizações de defesa dos direitos civis — vêm salientando há anos que, na prática, a proposta equivale a uma vigilância em massa de toda a população. A comunicação encriptada torna-se efetivamente impossível, pois quem a monitoriza quebra a encriptação.
O dossiê legislativo encontra-se há já algum tempo nas instituições europeias e está agora em segunda leitura. É precisamente este último pormenor que é crucial para a controvérsia atual.
Procedimento de urgência que, segundo o regulamento, não é permitido
A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, aprovou um procedimento de urgência para levar rapidamente a votação a proposta «Chat Control». O problema: esse procedimento de urgência existe formalmente apenas para propostas em primeira leitura. Sonneborn chamou subtilmente a atenção para este facto durante o debate em plenário em Estrasburgo — após o que Metsola desligou o seu microfone precisamente sessenta segundos depois.
Sonneborn e Berg já tinham alertado Metsola por escrito, no sábado, de que a aprovação do «Chat Control» através de um procedimento de urgência viola o regulamento parlamentar. A sua reação perante a imprensa? Que tudo decorreria rigorosamente de acordo com as regras. Por enquanto, não apresentaram qualquer resposta por escrito sobre o conteúdo da questão aos dois deputados.
Ich habe heute versucht, die Chatkontrolle zu stoppen.
— Martin Sonneborn (@MartinSonneborn) July 6, 2026
Am Wochenende mussten Sibylle Berg und ich Parlamentspräsidentin Metsola schriftlich mitteilen, dass das Durchprügeln der Chatkontrolle im Eilverfahren leider gegen die Geschäftsordnung des EU-Parlaments verstößt. Während… pic.twitter.com/Jw8as2VivU
O precedente do apoio à Ucrânia: comparar maçãs com peras
Na sua defesa, Metsola referiu-se ao procedimento de urgência que foi iniciado em 2022 para o pacote de apoio à Ucrânia. Uma comparação que não faz sentido, segundo Sonneborn. Na altura, o Conselho tinha prometido por escrito adotar literalmente o texto do Parlamento, pelo que o procedimento de urgência, na prática, executava a vontade do Parlamento — e tudo isto numa situação de guerra. Não se trata, neste momento, de uma situação comparável. O «Chat Control» não é uma crise de guerra e não existem garantias semelhantes por parte do Conselho. A utilização do precedente da Ucrânia é, por isso, vista pelos críticos como um estratagema político para fazer passar discretamente uma lei controversa.
As férias de verão como arma política
O momento escolhido para a votação suscita algumas dúvidas. A votação em plenário está marcada para quinta-feira — o último dia antes das férias de verão. Quem quiser impedir o «Chat Control» precisa de uma chamada «maioria qualificada»: 361 deputados a votar contra. Esse já é um limiar elevado, mas torna-se ainda mais alto quando grande parte dos deputados já está a caminho dos seus destinos de férias. Coincidência? Sonneborn questiona isso veementemente. Parece uma estratégia deliberada para minimizar a resistência, escolhendo o momento da votação da forma mais desfavorável possível para os opositores.
As grandes empresas tecnológicas ganham, os cidadãos perdem
Caso o «Chat Control» venha a ser aprovado, as grandes empresas tecnológicas — ou seja, os gigantes tecnológicos norte-americanos que gerem as plataformas — receberão autorização para vasculhar, de forma legal e sistemática, as mensagens privadas dos cidadãos europeus. Isto é controverso, pois, ao mesmo tempo, essas mesmas plataformas afirmam que protegem a nossa privacidade. Na prática, esta proposta significa que os governos e as empresas estão a construir, em conjunto, um sistema que impedirá qualquer pessoa de comunicar de forma privada.
As organizações de defesa da privacidade já alertaram repetidamente que este tipo de legislação cria um precedente perigoso — não só na Europa, mas a nível mundial. Se a UE, o continente que gosta de se apresentar como guardiã dos direitos fundamentais digitais, normalizar a vigilância em massa, outros seguirão o exemplo.
A democracia sob pressão no coração da Europa
O que torna este dossiê tão preocupante vai além da simples questão da privacidade. Trata-se de saber se o Parlamento Europeu ainda respeita as suas próprias regras. Um presidente do Parlamento que ignora publicamente as perguntas críticas dos deputados, contorna os procedimentos e desliga os microfones: são sintomas de uma instituição que teme o debate. Sonneborn e Berg não lutam apenas contra uma lei, mas também pelo princípio de que os procedimentos democráticos têm realmente importância — mesmo que isso seja inconveniente para a maioria.
Os próximos dias serão decisivos. Se o procedimento de urgência for aprovado, o «Chat Control» entrará na ordem do dia na quinta-feira. Caberá então aos deputados presentes demonstrar se levam a sério os direitos fundamentais digitais dos cidadãos europeus — ou se preferem ir de férias.
Sobre o autor: Robin de Boer é geógrafo económico. Siga-o aqui no Substack para conteúdo exclusivo.
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